De Aboim à Gandarela

Data: 5 de Outubro de 2011

Texto e fotos: Pedro Ribeiro

O meu amigo ET é um ideota. Não verifiquei se a palavra existe mas, para mim, significa alguém que está sempre a "parir" ideias (para voltas de bicicleta). A algumas até dou crédito.

Eu sou o idiota. Porque vou na conversa dele e tento concretiza-las. E depois empeno (o que até nem foi o caso de hoje).

Onde as nossas mentalidades chocam é na execução das ideias. Normalmente ele faz planos para o médio e longo prazo. A sua atribulada vida social não lhe deixa grande espaço livre.

Do outro lado da barricada estou eu, apreciador da frase que em tempos um ciclista conhecido proferiu para se definir "não gosto dos entusiasmados até à última da hora que depois desistem por pormenores". O pormenor será a execução. Demasiado impaciente para esperar, prefiro poucos projectos mas que possa realizar logo no dia seguinte.

Algumas das estradas que fiz já eram para ter sido testadas na recente incursão a S. Miguel do Monte mas o tremendo empeno do Óscar acabou por deitar por terra o projecto. Assim resolvi aproveitar o bom tempo e voltei à carga a solo (o ET estava de novo "out"), decidido a fazer esses e mais uns quantos caminhos novos.

Cedo verifiquei que algo não estava bem. Mal passei a ponte de Riba d'Ave e comecei a subir senti uma sensação de fraqueza. O maldito vírus que me importunara toda a semana passada a fazer ainda das suas. Vamos andando e vamos vendo.

Atravessei Guimarães e iniciei a subida para Mesão Frio. Havia um enorme pelotão de ciclistas de BTT para ultrapassar. Logo hoje, que me sinto assim. Mas lá passei, nas calmas. Desistir não estava no meu pensamento. Sou demasiado teimoso, além disso confiava que com o avançar do dia a situação poderia melhorar. Recordava que nunca tinha sido resgatado devido a empeno e que hoje não ia ser a primeira vez, que era tudo uma questão de manter o ritmo ajustado às forças que tinha.

Ciclovia, Fafe e em Estorãos início da subida para a Lagoa. Ainda era cedo mas desta vez resolvi parar numa pastelaria para reforçar o pequeno almoço.


Reiniciei a subida. Ia-se fazendo mas perto de Pedraído já não me sentia muito confortável em cima da bicicleta. Pior fiquei quando depois da Lagoa me apercebi que aquilo ainda subia um bocadito antes de começar a descer para o outro lado. Pudera, sempre fizera aquilo em sentido contrário e a gente nunca dá o merecido valor ao que desce. Como eu estava...

Passado o topo tinha agora o prazer de descer a maldita subida dos 10%. Até meio, porque depois havia que fazer o corte à direita para a aldeia de Aboim onde tive de enfrentar uma rampita valente a caminho da estrada que me havia de levar a Bastelo.

Estava agora em plena estrada de montanha, um risco de asfalto que corta aquele topo montanhoso onde existem também belos trilhos para a prática de BTT que já tivemos em tempos oportunidade de percorrer.


Em Bastelo tive algumas dúvidas sobre o caminho a seguir mas afinal não havia que enganar, só havia estrada asfaltada em frente, eu é que estava com a memória confusa.

Rapidamente cheguei à N311, nos arredores de Várzea Cova, mas apenas durante alguns metros me mantive nesta via, tendo virado quase de imediato para a estrada de Passos.

Mais uma estrada sossegada, para não dizer deserta, que acompanhava a abrupta encosta do vale no fundo do qual corre a Ribeira da Várzea. Aliás, o vale é uma continuação daquele que já vínhamos a ladear desde Aboim, só que aí a ribeira chama-se da Abrunheira. E, mais adiante, haveria de transformar-se em Ribeira de Petimão.

Depois de Passos a navegação tornava-se mais complexa devido ao emaranhado de estradas e caminhos. O calor apertava e estava a consumir água (que mais parecia chá) a bom ritmo. Parei assim numa fonte, que me afiançaram oferecer água potável, bebi, comi e pedi informações a uma habitante. Fiquei a saber que a tal ponte que tinha verificado no dia anterior no GE que iria ter de atravessar se chamava Buraca da Moira. É um nome que desperta a imaginação dum gajo, principalmente a mim, que prefiro uma moura morena e bronzeada a uma celta ruiva e deslavada. Mas buracos, pontes e bicicletas nunca combinam bem e a senhora lá me foi avisando que depois aquilo subia muito.


Ok, era verdade. Era uma rampa acentuada mas não era longa. Nem 1000 metros devia ter. Rapidamente cheguei à N206 que subia ligeiramente a caminho da Gandarela de Basto. E pela primeira vez neste dia sentia algum à vontade ao pedalar. Seria do calor?

No cruzamento da Gandarela virei à esquerda, como se fosse para Mondim, e cerca de 1km mais abaixo, à direita. O André já em tempos por aqui a relatou. Trata-se duma estrada que já há algum tempo me despertava a curiosidade e que, numa subida relativamente suave, me havia de levar ao sopé do terrível troço final do Viso.

Ainda olhei para o seu início... naaaahhh. Num outro dia, de preferência com companhia Já a próxima subida à direita me deixava tentado. Tratava-se duma estrada asfaltada, presumo, num passado recente e que, segundo o GE, ia dar directo à Capela do Viso. Logo, ainda devia ser uma subida mais aterradora. O padeiro confirmou que sim, que o trajecto era mais curto (logo, mais a pique) e muito dura nalguns ganchos. Hoje não tinha condições mas o desafio está lançado. Segui para o Carvalho.

Alguns longos kms com muito calor, uma ou outra subidita, a acompanhar mais um longo vale lá em baixo.

No Carvalho, como já conhecia a outra alternativa, optei por descer para Fervença. Estava de novo a precisar de comida e bebida e sabia que lá havia um multibanco. Pensei que fosse mais longe mas afinal Fervença ficava apenas poucos kms abaixo.

Depois de abastecido continuei pela estrada com destino a Felgueiras, tendo ido desembocar no entroncamento da zona industrial, na estrada Felgueiras-Fafe. Felgueiras era já abaixo e depois seria só descer até Vizela e regressar a casa. Mas outra estrada me deixava curioso. Virei para o sentido de Fafe!

Em Regadas consultei alguém numa esplanada em busca da informação que precisava:
-Sim, por ali dá, vai parar a Armil. Mas sobe um bocado ao princípio.
-É aquela rampa que se vê daqui?-perguntei.
-Sim. Sobe até ali ao topo do monte.
Não me pareceu muito. Era realmente inclinada mas devia ter apenas uns 500m. Era evidente que o sujeito não era ciclista.

E depois veio o melhor. Uma longa e rápida descida até Armil e ao vale do Vizela. Ainda bem que o percurso é neste sentido - pensei .

Agora era só acompanhar o Vizela até à localidade homónima, através da bucólica estrada, aqui e ali interrompida por umas secções de pavê agressivo.

O calor apertava agora com força e antes de chegar a Vizela ainda tive de re-hidratar mais uma vez.

A partir daí foi até casa sem parar. Moreira, Riba d'Ave... e estava feito. Devia era ter colocado protector solar. Estive à beira do escaldão.

Este percurso deu-me um prazer especial. Não que as serras tivessem a imponência de outras que por aí há, ou que tivesse de vencer grandes dificuldades, a não ser as impostas pelo meu organismo debilitado e que se reflectiram numa média fracota; só que fiquei encantado por adicionar à colecção mais um bom conjunto de estradas secundárias e pacatas que tornam mais próximos certos lugares que antes nos pareciam tão afastados entre eles.

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